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Autor: Agenor Gasparetto
Título do Livro: Regressantes
Situação do Livro: PUBLICADO

 
TRÊS PANCADAS DE REMO NUMA NOITE ESCURA


O som da terceira pancada ecoou mais forte em seus ouvidos cansados. Já não era dolorido como outros que ainda ecoavam em seu coração. Aquele parecia se somar aos dois anteriores como pequenas ondas que se formam ao jogarmos uma pedra em uma lagoa, repetindo-se indefinidamente. Pensou em levantar-se, indo em direção à porta, pois sabia ser sua a visita. Sentiu o corpo leve, como se estivesse mergulhando nas águas calmas do rio. Tudo a sua volta era branco, luminoso, produzindo uma sensação de paz, tocando-a profundamente. Não o via, mas sentia fortemente a sua presença. Os sons ainda ecoavam em sua alma. Em um lampejo de vaga-lume em noite sem lua, a história de sua vida passou toda ante sua mente. Expirou com suavidade. Seus olhos cerrados e seus lábios entreabertos pareciam dizer que sua própria alma deixava aquele seu sofrido corpo junto com aquele sopro. Um sorriso teimava permanecer como se estivesse a reter para sempre a alegria do reencontro tardio em uma ensolarada e quente tarde de primavera, na principal avenida de Itabuna...

***

Corria o ano de 2000, e Ana encontrava-se caminhando pela calçada, quando viu, no outro lado da avenida, um velho homem lendo as manchetes de jornais numa banca de revistas. Olhou-o atentamente. Aguçou o olhar o tanto quanto lhe foi possível. Aquela figura tinha algo de estranhamente familiar. Sem hesitar, como que impulsionada por força estranha, foi em sua direção. A cerca de três metros, estancou, permanecendo paralisada por alguns instantes. Nesse momento, o velho homem percebeu aquela senhora. Fitou-a, encabulado por sentir-se foco de compenetrada atenção. Não sabia quem era. Ana, mesmo 50 anos depois, já não tinha dúvidas. Querendo confirmar sua expectativa, rompeu a paralisia e o silêncio e com voz embargada, como se não lhe quisesse sair da garganta, falou-lhe:
– É você, Jorge?

A voz de Ana ecoou como um sussurro suave, terno, docemente musical.
– Sim, sou Jorge, Jorge Almeida. De onde nos conhecemos, senhora?

Ana esboçou um sorriso leve, contido, profundo. Foi o bastante para Jorge mergulhar no tempo. Perplexo pela inesperada revelação, Jorge retribuiu-lhe o sorriso. Com espanto e curiosidade, exclamou:
– Ana, que surpresa em vê-la por aqui!

Ficaram os dois a se olharem como se estivessem procurando alguma coisa preciosa e indefinida. Ana ensaia quebrar aquele encanto e arrisca convidá-lo para provar um sorvete. Estava decidida a não o perder, ainda que tão tardio. Decidiu deixar-se levar por aquela correnteza, ainda que, objetivamente, nada parecia lhe faltar e nada tencionasse. Fazia-lhe bem esse se deixar levar por aquele impulso. Queria apenas estar próxima, junto. Ele, cortesmente, aceitou de pronto. Os dois, em silêncio, atravessaram a Avenida Cinquentenário e entraram na sorveteria Danúbio Azul.
Ana ansiava por se explicar. Depois de tanto tempo, seguramente, seria uma explicação já sem relevância, sem consequências. Ainda assim, precisava fazê-lo. Obedeceria à sua intuição e sentia-se bem com essa inusitada perspectiva. As batidas de seu coração continuavam aceleradas. Sentia-se, outra vez, menina-moça. Mal se continha em sua emoção. Jorge estava um pouco atônito, fez-lhe companhia, observando-a atentamente. Ele serviu-se com sabor chocolate como que numa homenagem àquela terra. Ela o acompanhou.
Da sorveteria, foram à praça Olinto Leone, muito próxima dali, sentaram-se num banco, sob a sombra refrescante de uma amendoeira, e continuaram a conversar por longo tempo, alheios ao vai e vem incessante de pessoas atravessando aquela praça. Melhor, Ana parecia contar uma história e Jorge ouvi-a atentamente como se não quisesse perder uma única palavra.

***

Aqui é preciso fazer uma pequena pausa para uma volta no tempo. Há sessenta anos, em Itapira, hoje Ubaitaba, às margens do rio de Contas, Jorge, então com 19 anos, e Ana, com 15, viveram uma paixão abrasadora, cruelmente ceifada pelo destino.
Jorge era um jovem forte, atraente, mas pobre. Trabalhava num armazém, carregando e descarregando sacos, caixas e fazendo tudo que lhe era ordenado, sem horizontes que lhe parecessem promissores. Nas horas livres, era canoeiro e pescador. Passava horas remando em sua canoa. Nos fins de semana, tardes inteiras. Ana era uma estudante, filha de uma costureira, Dona Maria, e de Seu Antônio, trabalhador rural. A mãe cuidava da casa e das três filhas, das quais Ana era caçula, enquanto Antônio trabalhava, de segunda a sexta-feira, numa roça de cacau, lá pelos lados de Piraúna, nas proximidades da Cachoeira do Coronel. Nos fins de semana, juntava-se à mulher e às filhas, trazendo algumas frutas, principalmente bananas e jacas, e também jenipapos, cajás e outras que a mata quente e úmida generosamente presenteava aos trabalhadores que as colhiam. Sábado, com o dinheiro da semana, era dia de feira ao ar livre, sempre uma grande festa. Nela, cidade e roças marcavam encontro. Tudo podia acontecer e acontecia, para o bem ou o mal, sorte de uns e desgraça de outros.
Dona Maria não via com simpatia a aproximação entre sua filha e aquele jovem, ainda que laborioso. Ana, sabendo das restrições da mãe, procurava Jorge e este a ela, longe dos olhos da costureira. A paixão crescia. A cabeça de Ana vivia, noite e dia, seu romance. A menina estudiosa viu, no seu boletim, notas em cor vermelha. Parecia que estava desaprendendo, emburrecendo. Maria notou o estado de deslumbramento aluanante de sua filha e pressentiu a causa de tal alienação. Conferiu e confirmou sua suspeita. Numa noite, quando a filha voltou para casa, lá estava ela esperando, em frente à porta aberta. Foi logo dizendo em tom de desaprovação:
– Você acha que não sei? Você acha que me engana com esse olhar de santa? Acabou pra você viver no mundo da lua. Você tá proibida de sair com esse rapaz.

Ana, vendo-se descoberta, tentou explicar-se. Realmente, a sua imaginação ousava bem mais do que se permitia nos encontros, não havia, porém, argumentação possível com posições tomadas a priori. Entrou em casa e trancou-se no quarto. De lá só saiu no dia seguinte, manhã, pé ligeiro na porta da rua, para ser interditada novamente pela mãe, com voz dura e seca:
– Você fica aqui. Só sai para a escola ou quando eu mandar. E trate de ir arrumando a casa, porque você não está numa pensão.

Ana sentiu que daí em diante não seria mais como antes. Ficou durante dias e noites tecendo planos para reencontrar-se com sua paixão. Seu espaço de manobra ficou menor. Mesmo assim, não tardou para descobrir meios de encontrá-lo.
A partir da oposição da mãe de Ana, Jorge, ciente da oposição de Dona Maria, concluiu por ser aquele lugar pequeno demais às suas ambições, sua própria falta de perspectivas um óbice ao consentimento da mãe de Ana, convicta de poder “arrumar coisa melhor para a filha”, além da amada também merecer melhores projeções de futuro. Ali, sabia ele, não era seu lugar e foi cultivando o desejo de ir, como outros, para a próspera São Paulo, terra da fartura e de empregos. É para lá que teria que ir. Não estaria abrindo caminho novo nisso. Desejou que Ana fosse com ele. Esta ficou impressionada com o seu plano, que teve como testemunha sua canoa, no meio do rio, longe dos olhos da cidade. No entanto, mesmo compreendendo-lhe as razões, estaria numa situação muito delicada. Teria que romper com a mãe e a própria família e isso a perturbava. Pior: São Paulo a assustava. Nessa cidade, imaginava-se uma órfã. Via perigos mais do que empregos. Por fim, disse-lhe que pensaria e lhe daria uma resposta no prazo de um mês.
Os dias foram passando e as dúvidas só faziam aumentar e atormentar a jovem Ana. Um mês depois, estavam os dois subindo de novo o rio, conduzidos pelas remadas fortes e espaçadas de Jorge. A canoa deslizava suavemente. Ao chegarem a um lugar suficientemente distante para não serem perturbados, Jorge retomou o assunto:
– E então? Vai comigo?
– Acho que não sei.

Jorge sorriu. Tentou convencê-la do quão bom seria para ambos São Paulo. “É nosso futuro”, dizia-lhe.
Ana parecia, todavia, incapaz de dirimir suas dúvidas e seus medos, agigantados por sua inexperiência. Pediu-lhe mais um mês. Seria o último mês para pensar.
Os dias foram passando e Ana, não resistindo, pensou em contar para a mãe sobre suas intenções. O pai, nem pensar, não entenderia mesmo. A concordância da mãe, ao menos, facilitaria tudo. Maria, porém, cortou-lhe a frase pelo meio e foi categórica. Não iria permitir, de jeito nenhum, que sua filha embarcasse em uma aventura.
– Não, não e, mais uma vez, não!

Ana ficou com o resto da frase engasgada e não se conformou com a sentença fulminante. O calor corou as faces de Ana, enrijecendo-as. Inconformada com essa sentença, começou a cultivar a disposição de desafiá-la. Disposição que só aumentaria após ouvir as justificativas da mãe, agora num tom mais suave:
– Você é jovem e bonita, minha filha. Você vai encontrar aqui mesmo um bom homem, vai casar e ter filhos. Você precisa encontrar um homem com recursos, com futuro. Nem sonhe com aquele moço. Vai perder seu tempo.

No dia seguinte, Jorge soube desse segundo não. Soube também das intenções de Ana: ele era a sua vida e ela iria, mesmo sem a bênção da mãe. Encorajou-a. Dentro de três semanas estava indo um caminhão de homens para a rodovia Rio-Bahia, de lá para São Paulo. Jorge informara-se de tudo. Combinou o plano com Ana. Fugiriam no pau-de-arara. Em São Paulo, casariam tão logo lá chegassem. Deus haveria de entender a ousadia e abençoar a união. Ana imaginava que o tempo e o êxito pudessem aplacar a ira dos pais e fossem bem recebidos, num Natal, talvez, quando voltassem a passeio.
Excitada e ansiosa, Ana, faltando três dias para a programada viagem, não conteve o precioso segredo, que parecia sair-lhe pelos poros, revelando-o a amigas íntimas das quais se despedia. Sentia-se aliviada em fazê-lo e pediu-lhes segredo, encarecidamente. A ousadia de Ana deixou-as perplexas, num misto de admiração e de inveja. Tudo se teria encerrado nessa revelação, não fosse a indiscrição de Marisângela, irmã menor de uma delas, que espreitava a cena e ficou muito impressionada com esse tal de pau-de-arara que seria usado na fuga. Sabia o que era pau e sabia o que era arara, mas como Ana e seu namorado poderiam ir para tão longe e, não bastasse, de noite. No dia seguinte, Marisângela brincava de amarelinha no passeio de sua casa com Rafaela, que cansada desse jogo, propôs brincar de empinar pipa. Nisso, Marisângela lembrou do segredo de Ana. Rafaela também não sabia o que era esse tal de pau-de-arara. Então, passaram a confabular e concluíram que deveria se tratar de alguma coisa mágica que faria aquele par de namorados, no meio da noite, irem embora para muito longe. A pequena Rafa, com a imaginação de seus cincos anos, teve uma intuição e disse como quem tinha acabado de desvendar o segredo:
– É uma bruxa com uma vassoura voadora, feita com penas de arara!
– Bonita assim, não pode ser uma bruxa. Acho que é uma fada festeira, que gosta de roupas coloridas”, complementou Marisângela.

Alguns minutos depois, a luz daquela intuição começava a se apagar. “Por que teria que ser de arara e não de outro passarinho?”, perguntou Marisângela. Concluíram que não poderia ser isso, porque bruxas e fadas só existem nas histórias dos livros. À noite, a pequena Rafaela perguntou a sua mãe sobre como era viajar num pau-de-arara. Esta, pressentindo um grave segredo na indagação sobre o meio de transporte, extraiu da pequena o que precisava saber. Não titubeou e de imediato foi visitar sua comadre. Maria, mãe de Ana, toda ouvidos, não perdeu nenhum detalhe. A partir de então, para não levantar suspeitas da filha, continuou tocando suas coisas como se nada soubesse, mas quando pensava no pretendente fujão, levando sua caçula, falava para si mesma, mordendo os lábios de incontida satisfação: “Eu, morar nesta lagoa e perder pra sapo? Nunca”. E sorriu, imaginando o desfecho. Agradeceu a Deus sua sorte. Sentiu-se profundamente abençoada.
Na noite da planejada fuga de Jorge e Ana, Maria também ficou acordada na pequena sala, costurando, ficando o sono para muito além da margem do rio. Costurava incessantemente, freneticamente, tentando liberar assim sua ansiedade. Uma hora antes do horário combinado, entrou no quarto da filha. Vendo-a arrumada feito ararinha azul, trajando um longo vestido, exigiu-lhe que o tirasse imediatamente. A filha, surpreendida, mas ainda apostando no segredo, obedeceu-a prontamente, como quem nada tivesse a temer. No entanto, quando viu a corda de sacaria sendo puxada do bolso do avental, estremeceu. Atordoada, não reagiu, quando a mãe amarrou seu tornozelo ao pé da cama, fazendo um duplo nó cego. Maria, para não ser surpreendida, ainda recolheu da cama o belo vestido azul. Não demorou muito a descobrir no armário a bagagem preparada para a fuga. Recolhe-a, trancando, ainda, o quarto da filha.
Às duas da manhã, exatamente na hora marcada, uma pancada seca do remo, na madeira da canoa de Jorge, ecoou na noite escura. Ana desatou em um choro desesperado. Por mais que se debatesse, não estava conseguindo desatar o nó que a prendia. Estava apenas de calcinhas. As melhores roupas, a mãe as tinha levado consigo. Quanto mais o tempo passava, mais aumentava a aflição e mais soluçava. Uma segunda pancada fez-se ouvir. Já se tinha passado meia hora. Ana tinha apenas mais meia hora para encontrar seu amado. A terceira pancada seria a de despedida: teria mudado de ideia e desistido.
Na canoa, Jorge esperava e impacientava-se. A brisa fria da madrugada açoitava seu rosto. Os olhos miravam na direção em que deveria surgir o vulto, o corpo de Ana, sua amada. Porém, nada. Nenhum sinal dela. Dá uma última e triste pancada. Era a derradeira. Sentia-se abandonado e invadido por profunda tristeza. “Como podia ela desistir”, pensava. “Que paixão era essa que se apagava tão facilmente?” Mesmo assim, como era muito escuro e havia ainda tempo, esperou mais meia hora. Eram necessários não mais do que dez minutos para fazer esse percurso. Tudo em vão. Parte só e desapontado, em sua canoa, para o outro lado do rio.
No quarto de Ana, após a terceira pancada, um soluço fez-se ouvir e durou até a manhã seguinte. Então, já sol acima do horizonte, Maria entra no aposento. Escondendo um riso de vitória, corta o nó, devolve-lhe as roupas e antes de deixar a filha, lhe diz que esta ainda iria lhe agradecer por aquilo. Foi expulsa aos gritos: “Sai!” “Sai!” Mas não se importou.
Passaram-se vários dias e Ana não saiu de seu quarto. A mãe, pacientemente, levava a comida nos horários certos. Mostrando-se preocupada com a saúde da filha, fez com que as amigas a visitassem. Acreditava ser uma questão passageira.
Aquele excesso de zelo só fazia aumentar o ódio interior que Ana sentia. A face da mãe com seu sorriso de vitória só faziam aumentar nela o desejo de fugir para São Paulo e encontrar seu amado. Noite após noite, arquitetava um plano de fuga. Preparou uma pequena sacola com algumas roupas, para que a mãe não desse falta, e atravessou o rio com o pretexto de visitar uma amiga que morava em um sitio à beira da estrada que ia para um lugarejo chamado Lage do Banco. Parou um pouco antes, entrou na mata e escolheu um lugar próximo a uma jaqueira. Após enrolar a sacola em um saco, escondeu-a sob um manto de folhas secas. Voltou para casa no final da tarde, orgulhosa por ter completado a primeira fase de seu plano. Ana, que tinha passado a frequentar as calçadas dos armazéns de cacau, na praça central da cidade, ficou sabendo que, alguns dias depois, sairia mais um pau-de-arara em direção a Jequié, de onde muitos partiriam para São Paulo. Na noite que antecedeu a madrugada da partida, Ana recolheu-se mais cedo ao seu quarto. Tentou dormir, mas a ansiedade não a deixou. Percebeu, todas as vezes que sua mãe entrava no seu quarto, um ritual que se repetia noite após noite. Antes que as primeiras luzes do dia surgissem no horizonte, Ana pulou a janela e, tomada por um sentimento de rebeldia, como nunca havia sentido, atravessou a nado o rio de Contas, não se importando com o frio, nem com a intensa neblina que escondia suas águas. Foi em direção ao local onde havia escondido sua sacola de roupas da viagem. Encontrou-a com facilidade. Não deixou de experimentar, todavia, uma pequena decepção ao ver que elas estavam bastante úmidas. Tirou suas roupas molhadas e trocou-as por outras umedecidas. Dirigiu-se para a estrada e tomou o pau-de-arara. Era a única jovem naquele caminhão. Viajou o tempo todo de cabeça baixa, tentando esquivar-se daqueles olhares curiosos. Aquela viagem lhe pareceu uma eternidade. Chegou no meio da noite. Fazia frio. Tinha fome e uma tosse começava a incomodá-la. Percebeu que não havia pensado em muitos detalhes e que o seu plano de fuga era mais ousadia do que planejamento. Outros caminhões começavam a chegar despejando mais migrantes sonhadores com o Eldorado do sul. Ana estava cabisbaixa, sentada numa mureta, tendo ao lado sua pequena sacola, com o rosto entre as mãos. Não dormiu. Quando amanheceu, a tosse insistente fez-se ouvir, por mais que tentasse abafá-la. Aproximou-se dela uma senhora de vestido preto que, com voz terna, perguntou:
– Está sentindo alguma coisa, menina?

Ana levantou os olhos e não conseguiu conter as lágrimas.
– Fome e frio! – falou com voz embargada.
– Venha comigo! – disse a senhora, segurando Ana pelo braço, o qual sentiu que estava febril.

Ana tomou sopa enquanto aquela desconhecida a olhava com ternura. Chamava-se Júlia. Era viúva e ganhava a vida como costureira. Tinha quatro filhas, nenhuma em casa. Duas estavam em São Paulo e delas pouco tinha notícias. Júlia tratou da tosse de Ana. Aos poucos foi ganhando a confiança da jovem que lhe contou toda sua história e do seu desejo de ir para São Paulo. Júlia escutava com paciência e não mostrou oposição aos planos de Ana. Disse-lhe que precisava esperar alguns dias para melhorar de sua tosse e gripe. Convenceu-a também a trabalhar e juntar algum dinheiro para a viagem. Ana ajudava Júlia em seu ofício e ganhava alguns tostões que economizava obstinadamente, contando-os e recontando-os noite após noite. O tempo foi passando e o sonho foi ficando mais distante. Percebendo a angústia de Ana, Júlia chamou-a para conversar. Falou sobre os vários migrantes que já havia ajudado e para quantos o sonho da cidade grande havia se tornado um pesadelo. Ana, já vencida pela desesperança, foi convencida por Júlia que o melhor a fazer era voltar para a sua cidade e lá aguardar notícias de Jorge, que se a amasse de verdade, voltaria para buscá-la, assim que fosse possível. Júlia acompanhou Ana, na viagem de volta, tomando o cuidado para que a notícia do retorno de Ana chegasse primeiro. Júlia conheceu Maria, mãe de Ana, e lhe contou a história da menina fujona e sonhadora que só queria liberdade, mas que perdeu o encanto ao deparar-se com a realidade. O nome de Jorge não foi citado. Maria a acolheu por ser a mãe e também por ser movida por um sentimento de culpa que jamais admitiu.
Ana viveu anos tristes, sepultando, de vez, o sonho de sua mãe em vê-la casada com um rapaz abastado.
Isso se passou há 50 anos. Desde então, Jorge gastou o melhor de suas forças em São Paulo. Trabalhou em uma fundição. Ganhou dinheiro, construiu sua casa, casou e criou família. Aposentado, retornou com a sua mulher para o Sul da Bahia, a fim de acabar os dias que lhe restavam. São Paulo tinha pouco lugar para velhos e fracos como ele. Estava morando em Itabuna. Os seus três filhos arrumaram suas vidas por São Paulo.
Ana também casara e tivera quatro filhos. Todos já estavam casados. Tinha 12 netos. Mudou-se, havia seis anos, para Itabuna, para a casa da filha mais velha, ano depois que Antônio, Antônio Ribeiro, seu marido, enfartara. Tomava conta de dois netos. Maria morrera havia dez anos com o seu perdão, mas sem o esperado agradecimento. Isso era muito para o seu orgulho. Tivera uma vida bastante modesta. O homem de recursos não lhe apareceu. Casara com um trabalhador mesmo. E viveu bem com ele. Ele a amava mais do que ela a ele. Foi um bom marido, um bom pai, foi bom enquanto viveu.
Ana narrou sua história, detalhadamente, desde a noite da separação. Falou da sua dor ao ouvir as pancadas contra a madeira da canoa ecoando na noite escura e cortando o seu coração. Disse-lhe que ainda podia ouvir os ecos daquelas pancadas, que nunca cessaram verdadeiramente. Era como se isso tivesse ocorrido na véspera. No silêncio daquela noite escura e na sua mente, ecoaram nítidas e ainda continuavam assim hoje. Sentia-se imensamente aliviada por tê-lo encontrado e poder-lhe dizer que o amava, que não o abandonara. Ao contrário, tentara ir ao seu encontro, mas não tivera forças para tanto. Chorou ao relembrar do fracasso de sua viagem, mas garantiu a Jorge que seu coração jamais pertencera a outro. Jorge, profundamente emocionado, ouviu-a atentamente, sem dizer uma única palavra. Sorriu-lhe com ternura. Olhava os traços enrugados de sua querida Ana e lamentou não ter dado outros sinais. Três pancadas de remo na canoa, numa noite escura, mesmo que silenciosa, não bastavam. Jorge contou que, depois de esperá-la, remou para próximo do lugar em que deveria abandonar a canoa, na outra margem do rio. Aguardou o amanhecer nela e com um leve toque afastou-a da margem para que seguisse o seu destino, Itacaré, onde o rio encontra o seu mar, como ele encontraria a sua São Paulo, e não mais olhou para trás. Caminhou até o ponto da estrada em que deveria pegar o caminhão e o seu destino. Juntou-se a outros que, como ele, estavam trocando as agruras e a falta de horizontes nas roças de cacau pelas promessas da próspera cidade. E, antes do sol surgir, num pau-de-arara apinhado de muitos homens e de poucas mulheres, de muitas caixas, sacos, malas e outras coisas, fez a viagem de seus sonhos, tomado de tristeza e solidão.
Na praça Olinto Leone, já se tinham passado três horas e se deram conta que era noite. Despediram-se ternamente e acordaram que se encontrariam na tarde seguinte. E assim sucedeu na tarde seguinte e em muitas outras.
Após esse episódio, os olhos de Ana recobraram um brilho e uma vivacidade que pareciam perdidos desde a morte do seu Antônio. Passou a sair mais de casa. Sua voz ficou mais amável e havia mais jovialidade em seus gestos. Foi vista, em muitas tardes, sentada na praça Olinto Leone, conversando por longas horas com um velhinho de cabelos brancos, pele morena, de passos lentos e curtos, auxiliado por uma bengala. Conheceu a mulher dele, Jesuína, e fez-se amiga dela, que conhecia metade do enredo, desde os tempos de namorada, em São Paulo, ainda que filha de Caetité, velho sertão da Bahia. A Praça Olinto Leone, seus bancos e as velhas amendoeiras, foram testemunhas de muitos encontros, sob sua aprazível sombra, sempre ternos, sempre serenos.
Um ano depois do reencontro, Jorge, como fazia com frequência, foi ao banco da sua praça. Na hora combinada, pela primeira vez, Ana não se fez presente. Esperou meia hora e mais meia hora por ela. Enquanto aguardava sua querida amiga, sentiu-se tomado por sentimentos estranhos, que ganhavam densidade ao passar dos minutos. Jurara que era um sonho, não estivesse acordado, olhando com inquietude em direção de onde ela costumava aparecer. Aguardou uma última meia hora tomado de angústia. Estava inteiramente absorvido por lembranças distantes que não pediram licença para ocupar sua mente. Sentia-se novamente em um barco, numa noite fria e escura, aguardando sua amada, esperançoso e impaciente. As imagens e os sons vieram-lhe vívidos à mente. Parecia estar assistindo a um filme em que era o ator principal. Três minutos antes da terceira meia hora se esgotar, não mais suportando aquela espera, ergueu-se de seu banco e, sem hesitar, em passos curtos e cadenciados, foi ao encontro de Ana. Com a ponta da bengala, deu três leves toques na porta. Esperou alguns instantes. Deu mais outros três, trêmulos, nervosos. Parecendo que o tempo lhe era escasso, tornou a dar outros três. A porta se abriu, saindo dela uma menina, que o reconheceu, dizendo-lhe que iria chamar a quem ele estava procurando, pois ainda estava no seu quarto, dormindo.
Ana estava em seu quarto, indisposta, um vazio a lhe tirar o fôlego. Não percebeu a entrada da neta, mas sentiu a presença de Jorge na porta da casa. Este, por sua vez, assustou-se com a janela da frente, que se abriu e se fechou de repente, açoitada por uma rajada de vento mais afoita. A janela bateu mais uma vez, fazendo com que uma senhora jovem, a filha de Ana, saísse dos fundos da casa para fechá-la. O vento continuava soprando. Jorge era assaltado por um turbilhão de pensamentos. Uma sensação angustiante invadiu sua mente. Experimentava novamente um sentimento de perda que tanto já o havia amargurado. Ana ainda escutou a terceira tentativa de Jorge de se anunciar com sua bengala. Ela soava-lhe nitidamente em seus ouvidos. Sua alma então deslizava suave por sobre o espelho das águas do rio de Contas, procurando a canoa, que ela não tinha alcançado em vida...
 
     
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