Autor:
Térsio Estrêla Título do Livro:
PÂNICO: A SÍNDROME DO MEDO - Depressão, Angústia... Minha história, minha pesquisa. Situação do Livro:
PUBLICADO
I
– Alô... Térsio?
– Sim, Quem fala?
– Noélia. Conseguiu reproduzir a fotografia?
– Estive pela tarde com o Antônio Bispo e fizemos algumas experiências no laboratório dele. Não houve tempo de tentarmos revelar o filme positivo, mas tenho a impressão que dará certo. Já fizemos a reprodução de uma foto retirada de uma revista. Com o laboratório que tem, não haverá dificuldades. Fizemos a mistura dos químicos e revelaremos depois.
– E a terapia, como vai?
– Cada vez melhor, imagino que se não morri até agora... Acho que chegarei à cura. – Noélia é uma irmã mais nova e havia achado uma fotografia antiga onde estou sentado na escada de entrada da casa paterna juntamente com nossa irmã mais velha, a Noeli.
No meu tempo de infância, não havia fotografias coloridas. Havia umas fotos que observávamos em um pequeno binóculo onde se encontrava uma foto positiva colorida. E com a lente do pequeno instrumento, aumentava o tamanho e a nitidez das fotografias. O objetivo era transformar o filme positivo em fotografia comum. Desde o momento em que peguei naquele positivo, o desejo de transformá-lo em foto comum me tomou a vontade. Parecia que me vendo daquele jeito pequenino e irradiante de felicidade e bem-estar, dava impressão que era aquele menininho que eu estava precisando cuidar. Precisava cuidar dele para que renascesse dentro de mim. Talvez se conseguisse reabilitá-lo em harmonia comigo mesmo, conseguisse voltar no tempo e reencontrar em mim mesmo a felicidade.
No dia seguinte, logo após entrar no laboratório e levar os papéis aos químicos, acertamos de primeira. A foto saiu nítida e colorida, apesar de alguns riscos que os anos haviam lhe causado pelo mau cuidado. Ali estava o garotinho feliz que agora parecia gritar por socorro dentro de mim. Não mediria esforço para ressuscitá-lo, nem se fosse preciso revirar o mundo para entrar em harmonia com “ele”, para que viesse a tão sonhada paz. Coloquei-o em uma moldura em cima da estante da sala. Havia um compromisso meu com o sorriso daquela pequenina criatura. O sorriso do ego.
II
Apesar do frio que fizera durante aquela noite de julho, o sol levantou em um céu sem nuvens naquela manhã. Assim como todos os dias desde que comecei a trabalhar no Banco, sempre havia uma rotina preenchida com ocupações diversas. Cedo, peguei a sacola de malhação e saí de casa em direção à academia de musculação. Eu gostava de malhar muito e havia conseguido em um ano transformar o corpo franzino em uma bonita arquitetura atlética. Após um banho ao término dos exercícios, fui para o Banco cheio de alegria e felicidade. Eu era um rapaz extremamente feliz e otimista diante da vida. Terminei de fechar o caixa por volta das 18:00h., passei em casa para trocar as roupas de musculação por alguns instrumentos de sopro e percussão e lá ia eu mais uma vez para o ensaio da banda de rock. Era uma banda acústica, feita com a rapaziada do bairro em que morava e tocávamos em barzinhos por toda cidade durante as noites do fim de semana. Quando terminava essa rotina diária, era regulamente às 22:00h. Pouco restava do dia para um papinho com a turma da banda e voltar para casa cheio de cansaço e sono. Fora assim por três anos seguidos. Porém, naquele dia, havia acontecido algo estranho em mim.
Durante a malhação, me aproximei de um grande espelho preso à parede e comecei a me observar... Um frio forte me surgiu na barriga e o coração disparou como se houvesse tomado um choque. Uma sensação de medo invadiu minha mente e logo em seguida procurei me afastar e sentei em um aparelho para descansar. Comecei a sentir arrepios por todo corpo e a respiração ofegante me deixava perplexo. Que estava acontecendo comigo? Logo que passou aquele mal estar, fui trabalhar e outra vez algo fora do comum ocorreu. O expediente estava até calmo. Atendia uma fila de pessoas ansiosas para serem despachadas e certo momento levantei a cabeça, observei um homem negro e alto que estava encostado na vidraça junto à porta de entrada. Parecia estar esperando algo ou alguém. Logo em seguida, vi outro sujeito no outro lado da porta, como se estivessem tomando guarda da entrada e saída das pessoas. Arrepiei-me todo e de imediato pensei: vai haver um assalto na agência.
Após travar meu terminal de caixa, caminhei até à contadoria do Banco e expus o que tinha visto. O contador levantou assustado da cadeira e foi observar os supostos assaltantes que imaginava. Assim que chegamos ao boxe do caixa, vimos um cliente sair de um outro caixa com um pacote cheio de dinheiro. Os supostos homens se juntaram e saíram do Banco... Era simplesmente um fazendeiro que, chegado o dia de pagamento dos trabalhadores, fora sacar o dinheiro acompanhado. O companheiro olhou pra mim e riu:
- Que está havendo, Térsio, está ficando doido e sonhando com assalto!?
Procurei esquecer o que havia acontecido com o desenrolar do trabalho. Mas ao colocar a cabeça no travesseiro, relembrei desses episódios e fiquei assustado...
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